Autores: Francisco José Albuquerque de Paula, Barbara Campolina C Silva, Catarina Brasil d´Alva, Monique Nakayama Ohe, Miguel Madeira, Leonardo Bandeira e Farias, Narriane Chaves Pereira de Holanda, Neuton Dornelas Gomes, Ruy Lyra da Silva Filho, Márcio Weissheimer Lauria, Marcello Casaccia Bertoluci
Editor chefe: Marcello Bertoluci
Em colaboração com o Departamento de Osteometabolismo da Sociedade Brasileira de Endócrinologia e Metabologia (SBEM)
DOI: 10.29327/5660187.2025-4 | Cite este artigo
Introdução
A osteoporose é a doença osteometabólica mais frequente, sendo caracterizada por redução da resistência óssea e aumento da suscetibilidade a fraturas 1. O diagnóstico é feito por meio da medida da densidade mineral óssea (DMO) pela absorciometria de raio-X de dupla fonte (DXA). Em mulheres na peri e pós-menopausa, e em homens com idade ≥ 50 anos é feito comparando com a DMO de mulheres jovens, no pico de massa óssea, por meio do T-score ≤ -2,5 1,2.
A resistência óssea é determinada pela massa óssea, associada a fatores que influenciam a estrutura e a qualidade óssea. Os fatores que conferem resistência ao esqueleto são: a quantidade de massa óssea, estimada pela DMO, e a qualidade óssea, entendida como um conjunto de fatores estruturais relativos às propriedades do tecido ósseo. A forte associação entre DMO e fraturas, determina a DMO como o fator de risco mais importante para avaliação da suscetibilidade a fraturas 1.
A DMO permite reconhecer apenas uma parte da população predisposta, pois a maioria das fraturas por fragilidade óssea não ocorre em pacientes com osteoporose, mas sim nos com osteopenia, ou até com DMO normal 2.
Um esforço significativo tem sido feito para refinar o diagnóstico e permitir a identificação de pessoas com maior risco de fratura, mesmo quando o principal fator de risco, a osteoporose densitométrica, não esteja presente. Neste contexto, fatores clínicos como: idade avançada, fraturas prévias, tabagismo, etilismo, história familiar de fraturas, influenciam o risco de fratura independentemente da densidade mineral óssea.
O diabetes mellitus (DM) é um importante fator de risco para fraturas, e é influenciado por diversos fatores como: a heterogeneidade da doença, o tempo de diagnóstico, a deterioração da capacidade muscular, a presença de complicações macro e microangiopáticas e o tratamento utilizado para controle glicêmico (3-10, 35-38). Os fatores de risco para fraturas em pacientes com DM estão relacionados no quadro 1.
| QUADRO 1. FATORES DE RISCO PARA FRATURAS |
Gerais:
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Recomendações
R1 – É RECOMENDADO considerar o diabetes mellitus como um fator de risco independente para fraturas.
| Classe I | Nível B |
Sumário de Evidências:
Diversos estudos observacionais e metanálises mostram que o risco de fraturas vertebrais e não-vertebrais está aumentado em pessoas com diabetes.
- No estudo de coorte norte americano sobre saúde das enfermeiras, 109.983 mulheres foram seguidas por 22 anos, sendo 292 com DM tipo 1 (DM1) e 8.348 com DM tipo 2 (DM2). Mulheres com DM1 e DM2 apresentaram maior risco de fratura de quadril (RR 6,4, IC95% 3,9 –10,3 e RR 2,2, IC95% 1,87–2,7, respectivamente), em comparação com as sem DM. 3
- No estudo observacional Women ‘s Health Initiative, entre as 93.676 mulheres incluídas, 5.285 tinham diagnóstico de DM2, e foram seguidas por 7 anos. Esse subgrupo com DM2 apresentou maior risco de fraturas (RR 1,20, IC95% 1,11–1,30). Nessas mulheres, o maior risco de fratura foi identificado no quadril/pelve (RR 1,46, IC95% 1,17-1,83), pés (RR 1,32, IC95% 1,07-1,62) e coluna/cóccix (RR 1,27, IC95% 1,00-1,61). 4
- Uma metanálise de 25 coortes, sendo 16 prospectivas, incluiu 7.185.572 indivíduos com DM1 e DM2, e revelou aumento do risco de fraturas principalmente em pacientes com DM1 (RR 1,51, IC95% 1,35–1,68), embora também nos com DM2 (RR 1,22, IC95% 1,13–1,31), havendo diferenças sítio-específicas: o sítio ósseo que se associou com maior aumento de risco foi o quadril (RR 4,35, IC95% 2,91–6,49 no DM1 e RR 1,27, IC95% 1,16–1,39 no DM2). Esse estudo não evidenciou maior risco de fratura vertebral (RR 1,56; IC 95% 0,78–3,12; I2: 96,3%) 5.
- Uma segunda metanálise de 37 estudos (30 coortes) envolvendo 3.123.182 indivíduos, incluindo pacientes com DM1 e DM2, revelou aumento do risco de fraturas totais (RR 1,5; IC 95% 1,3–1.8) e de fraturas de quadril (RR 2,0; IC 95% 1,8–2,3) sendo o risco de fratura de quadril mais importante no DM1 (RR 5,3, IC95% 3,4–8,3) do que no DM2 (RR 1,6, IC95% 1,4–1,8). Não foi observado aumento do risco de fratura vertebral em pacientes com diabetes 6.
- Uma terceira metanálise de 42 estudos envolvendo 17.571.738 indivíduos com idade acima de 18 anos, com DM1, DM2, DM não especificado ou sem DM, revelou aumento do risco de fraturas não-vertebrais (RR 1,92, IC95% 0,92–3,99) no DM1 e RR 1,19, (IC95% 1,11–1,28 no DM2), assim como maior risco de fratura de quadril (RR 4,93, IC95% 3,06–7,95 no DM1 e RR 1,33, IC95% 1,19–1,49 no DM2). A incidência de fratura de quadril foi observada principalmente em mulheres, em uso de insulina e com duração do DM maior que 10 anos. Esse estudo não avaliou fraturas vertebrais. 7
- Quanto às fraturas vertebrais, os dados são mais escassos e diversos. Em uma metanálise de 8 estudos de coorte retrospectivos e prospectivos, envolvendo 938.231 pacientes com DM2 e indivíduos sem diabetes, observou-se maior risco de fraturas vertebrais em pacientes com diabetes (RR 2,03, IC 95% 1,60–2,59), mas com índice substancial de heterogeneidade (I2: 59,6%) 8
- Uma metanálise mais recente, que incluiu 15 estudos envolvendo 852.705 homens e mulheres com DM2, observou-se menor risco de fratura vertebral prevalente (OR 0,84; IC 95% 0,74–0,95; I2: 0%), mas maior risco de fratura vertebral incidente (OR 1,35; IC95% 1,27–1,44; I2: 0,6%) nos pacientes com DM2 9. Neste estudo, na análise usando dados individuais dos participantes, foi encontrado maior risco de fratura não vertebral e de morte entre pacientes com DM2 e com fratura vertebral prévia, do que naqueles sem DM2 e sem fratura ou quando apenas um dos fatores estava presente.
- A divergência entre o risco de fratura vertebral prevalente e incidente encontrada poderia ser explicada pela maior mortalidade entre os pacientes com DM2 e fratura vertebral. 10
- Em pacientes com DM1, dois estudos caso-controle demonstraram maior risco de fratura vertebral em pacientes com DM1 do que naqueles sem a doença 11. Há críticas metodológicas principalmente referentes à perda de seguimento dos sujeitos, o que poderia subestimar o risco de fratura nesta população 10.
NOTA IMPORTANTE 1: RISCO DE FRATURAS NO DM2
- O risco de fraturas no DM2 aumenta especialmente após 10 anos de diagnóstico (29, 33-35).
- Uma coorte populacional coreana que acompanhou uma população de 5.761.785 de indivíduos com idade >50 anos por 6 anos, observou maior incidência de fratura de quadril quanto maior a duração do diabetes. A incidência de fratura de quadril por 1000 pessoas-ano foi 1,3 nos recém-diagnosticados, 1,8 naqueles com menos de 5 anos de diagnóstico e 2,9 nos pacientes com mais de 5 anos de diagnóstico. Nesse estudo, o aumento do risco pela duração do DM ocorreu em ambos os sexos e em todos os grupos etários, embora tenha sido mais intenso nos jovens 36.
- Em um estudo populacional, no Canadá, que incluiu 8.840 mulheres com DM2, que foram comparadas a 49.098 mulheres sem diabetes, e seguidas por um tempo médio de 7 anos, o risco de fratura foi maior em mulheres com maior tempo de doença. A incidência de fraturas osteoporóticas maiores por 1000 pessoas-ano (IC 95%) foi de 11.9 (7.4 –16.4), 13.3 (8.4 –18.2), 13.9 (8.5–19.4) e 18.0 (13.1–23.0) em pacientes com primeiro-diagnóstico, menos de 5 anos, 5 a 10 anos e mais de 10 anos de diagnóstico, respectivamente. O mesmo padrão foi observado para fratura de quadril 35.
- Como anteriormente comentado, a metanálise de 42 estudos conduzida por Vilaça e col. revelou maior risco de fratura de quadril principalmente naqueles com duração do diabetes maior que 10 anos (RR 2,42, IC95% 2,08-2,81) e nos usuários de insulina (RR 1,79, IC95% 1,19-2,69, considerando somente pacientes com DM2 incluídos nesta análise). 7
- A associação entre controle glicêmico e fratura é descrita como uma curva em J, sendo o controle muito rigoroso e o mau controle ambos associados com fratura. Muitas evidências confirmam aumento do risco de fratura associado às hipoglicemias, o que provavelmente se deve ao aumento de quedas 37,38.
- Em uma coorte prospectiva japonesa que acompanhou 4.758 homens e mulheres com diabetes tipo 2 (duração da doença 16 anos) por 5,3 anos, foi observada maior incidência de fratura osteoporótica nos subgrupos que apresentaram uma (HR 1,57, IC95% 1,1-2,2) ou ≥ duas (HR 2,25, IC 95% 1,57-3,22) hipoglicemias graves (requerendo ajuda de terceiros), assim como no grupo com A1c ≥ 9% (HR 1,45, IC95% 1,06-1,98). A menor incidência de fratura ocorreu no grupo com A1c < 7% sem hipoglicemia 37.
- Uma metanálise de 17 estudos de coorte e caso-controle revelou associação linear entre fratura e controle glicêmico; o aumento do risco foi observado a partir de A1c 7%, sendo mais evidente na população com maiores valores de A1c. O risco de fratura aumentou aproximadamente 8% para cada 1% de aumento da A1c 38.
- Uma análise post hoc de dados do estudo clínico ACCORD não encontrou associação entre melhora do controle glicêmico e risco de fratura ou risco de queda 39.
- A presença de complicações associadas ao diabetes também pode ser um fator de risco de fratura. Isso pode decorrer de efeito direto sobre a resistência esquelética, bem como a maior risco de queda. Além disso, vale ressaltar que o aumento da concentração de produtos finais de glicação avançada está associado não apenas a complicações clássicas do DM, mas também a maior fragilidade óssea 40,43.
- Um estudo caso-controle do banco de dados dinamarquês, ao analisar 124.655 fraturas, revelou que a presença de múltiplas complicações, após ajuste para outros fatores, associou-se com aumento do risco de fratura (OR ajustado 1,3; IC95% 1,2-1,5) 44. Além disso, um estudo da microarquitetura e biomecânica óssea por HR pQCT em 51 pacientes com DM2, revelou que o subgrupo de pacientes com DM2 e doença microvascular apresentou menor DMO cortical volumétrica, menor espessura cortical e maior porosidade cortical no rádio distal quando comparado com controles saudáveis 45.
- Algumas classes de antidiabéticos têm sido associadas a fraturas em indivíduos com DM (ver recomendação 8). A tabela 1 sumariza os fatores de risco para fratura na população geral e em pacientes com DM.
NOTA IMPORTANTE 2: RISCO DE FRATURA NO DM1
- O DM1 é reconhecido como fator de risco para osteoporose, uma vez que essa condição está associada à perda de massa óssea, conforme mostram dados obtidos por revisão sistemática e meta-análise 24, 46, 47.
- Estudo prospectivo mostrou que o prejuízo ósseo no DM1 é precoce e não recuperado nos anos subsequentes (46). No entanto, é necessário considerar que, embora exista redução significativa da DMO no DM1, essa redução é modesta (Z-score −0.37 ± 0.16 e −0.22 ± 0.01 no fêmur proximal e coluna lombar, respectivamente) 24.
- Dados obtidos por Vestergaard e colegas e Janghorbani e colegas sugerem que o aumento de risco de fratura no DM1 é da ordem de 6,4 a 6,9 vezes em comparação com a população sem DM 24, 47.
Portanto, o modesto prejuízo de massa óssea explica, apenas parcialmente, o aumento do risco de fraturas no DM1
R2 – É RECOMENDADO calcular o risco de fratura pelo FRAX (Fracture Risk Assessment tool), ajustado para diabetes em todas as mulheres e homens com diabetes, a partir dos 50 anos de idade.
| Classe I | Nível B |
Sumário de evidências:
- Um estudo realizado no Canadá comparou as quatro formas de ajuste do FRAX para predição do risco de fratura no DM2: a) incluir artrite reumatoide, b) redução do T-score do colo do fêmur em 0,5 DP, c) aumentar a idade em 10 anos e d) ajuste com o TBS (Trabecular Bone Score). O estudo avaliou dados da coorte de Manitoba do período de 1999-2016 de homens e mulheres com idade a partir de 40 anos (44.543 indivíduos, sendo 4.484 homens, idade média de 63,9±11 anos, 4.136 diabéticos). Ao final, os autores concluíram que as quatro alternativas de ajuste melhoram a estimativa de probabilidade de fratura nos próximos dez anos, mas nenhuma traduz idealmente o efeito do diabetes 12.
- No caso da população estudada, é possível que o ajuste pelo TBS seja mais adequado para predição de fraturas maiores e que a redução de 0,5 DP no T-score de colo do fêmur seja o mais apropriado para o cálculo de fratura de fêmur proximal 12.
NOTA IMPORTANTE 3: AJUSTE DO FRAX PARA DM
- Diversos algoritmos foram desenvolvidos para facilitar o reconhecimento de fragilidade óssea e aprimorar a indicação do tratamento preventivo de fratura em pacientes que não apresentam osteoporose densitométrica.
- Eles estimam a probabilidade de fraturas maiores (coluna, fêmur proximal, úmero e antebraço) e fraturas no fêmur proximal em 10 anos. O mais utilizado globalmente é o FRAX (Fracture Risk Assessment Tool).
- O FRAX inclui: idade, sexo, fratura prévia, história de fratura de fêmur proximal nos pais, tabagismo atual, uso de glicocorticóide (≥ 5 mg de prednisona/dia ou equivalente por ≥ 3 meses), artrite reumatóide, osteoporose secundária, consumo de 3 unidades ou mais de bebida alcoólica/dia e a DMO do colo do fêmur.
- O DM1 é incluído no FRAX com uma das causas secundárias de osteoporose, porém o algoritmo somente usa a informação do DM1 como fator de risco adicional quando a DMO não é inserida para o cálculo de probabilidade de fratura em 10 anos. Dessa forma, ele modifica a probabilidade de fratura apenas quando a DMO não é inserida na calculadora. O DM2 não faz parte dos componentes do FRAX 13.
- A artrite reumatoide é a única doença considerada fator de risco independente 14.
- Tendo em vista que a DMO é frequentemente elevada ou preservada no DM2, mas para um mesmo valor de T-score o risco de fratura é maior no DM2 do que nos indivíduos sem diabetes, uma estratégia foi proposta por um grupo de trabalho da International Osteoporosis Foundation para auxiliar no cálculo de risco de fratura nessa condição 15.
- Ao utilizar a ferramenta FRAX (no Brasil, disponível no endereço: https://abrasso.org.br/frax-brasil/) uma das seguintes opções pode ser utilizada para ajustar o cálculo da probabilidade de fratura em 10 anos no DM2: 1) reduzir o valor do T-score em 0,5 DP; 2) marcar o item artrite reumatoide como um substituto do diabetes; 3) aumentar em 10 anos a idade do paciente; ou 4) ajustar o risco de fratura pelo valor do TBS. Importante ressaltar que não se deve fazer mais do que um ajuste no FRAX.
- A justificativa para considerar o item artrite reumatóide na avaliação de paciente com DM2 é o fato de que essas duas doenças têm o mesmo impacto em outro algoritmo de cálculo do risco de fraturas, o Q Fracture (16). Já a alternativa de aumento em 10 anos na idade do paciente seria justificável por ser equivalente à redução de 0,5 DP no T-score 12.
R3 – É RECOMENDADO realizar o exame de densitometria óssea (DMO) em mulheres e homens com diabetes, a partir dos 50 anos de idade, quando houver pelo menos 1 fator de risco adicional para fraturas (ver quadro 1).
| Classe I | Nível C |
Sumário de evidências:
- A medida da DMO pela absorção de raios X de dupla energia ( DXA) é recomendada para todas as mulheres com idade a partir dos 65 anos e homens a partir dos 70 anos. O exame pode ser antecipado para mulheres a partir da menopausa, ou para homens e mulheres a partir dos 50 anos quando se identificam fatores de risco para osteoporose ou fratura 17.
- A avaliação da suscetibilidade à fratura no DM2 pela DMO areal ainda permanece como um desafio. É possível que, em grande parte, isso se deva ao efeito positivo que o excesso de peso exerce sobre a massa óssea. Diversos estudos mostram existir associação positiva entre peso corporal e DMO (18). Estudos observacionais sugerem que a resistência à insulina não se associa negativamente com a massa óssea, apesar de potencialmente reduzir a remodelação óssea, a resistência e a espessura cortical óssea 19, 20.
- Na mesma linha, estudos realizados no Brasil mostram que indivíduos com resistência insulínica grave como na lipodistrofia generalizada 21, 22 ou parcial 23 familiar não apresentam redução de massa óssea em coluna lombar e fêmur proximal. Da mesma forma, estudos de metanálise revelam que a DMO em coluna lombar e sítios femorais é maior nos pacientes com DM2 do que naqueles sem a doença 24, 25.
- Recentemente, um estudo realizado em Hong Kong sugeriu que DMO elevada é um indicador de risco de DM2. Este estudo envolveu avaliação transversal, longitudinal e randomização mendeliana. Portanto, o DM2 não parece comprometer a massa óssea. No entanto, apesar da tendência à preservação ou ao aumento da massa óssea no DM2, como exposto na seção anterior, vários estudos indicam aumento do risco de fratura osteoporótica nessa doença, fenômeno conhecido como “o paradoxo da fragilidade óssea no DM” 26.
- O estudo de Rotterdam, que incluiu mais de 6.500 homens e mulheres, com e sem diagnóstico de DM2, reafirmou a existência de maior DMO entre aqueles com diagnóstico de diabetes. Apesar disso, o risco de fratura foi maior neste grupo (HR 1,33; 95 % CI 1,00-1,77) 27.
- No estudo Women ‘s Health Initiative, o aumento do risco de fratura observado nas mulheres com DM2 ocorreu a despeito da maior DMO basal em coluna lombar e fêmur proximal em comparação com mulheres sem diabetes 4.
- O aumento do risco de fratura nos pacientes com DM de maneira parcialmente independente da massa óssea poderia ser explicado por alterações relacionadas à qualidade óssea e a fatores extra esqueléticos. Alterações metabólicas, moleculares e microestruturais têm sido registradas como mecanismos. A taxa de remodelação óssea é reduzida no DM. Isso se traduz em prejuízo de renovação óssea e é refletido em baixas taxas de marcadores de remodelação óssea. Como exemplo, a esclerostina, proteína produzida pelos osteócitos que inibe a formação óssea, parece estar aumentada nos pacientes com DM2 28.
- Existem evidências de aumento da taxa de ligação dos produtos finais avançados de glicação (AGE, p.ex., pentosidina), elevando o número de ligações cruzadas maduras entre moléculas de colágeno. Diversos modelos experimentais indicam a ocorrência de prejuízo da resistência óssea por esse mecanismo, incluindo exame de microindentação 29.
- Tomografia computadorizada periférica de alta resolução (HR-pQCT) mostra aumento de porosidade cortical em pacientes com DM2 e deterioração do osso trabecular nos pacientes com DM1, com redução da densidade e do número de trabéculas e maior separação trabecular 30, 31. Finalmente, dados também mostram aumento da taxa de saturação de lipídios da medula óssea em pacientes com diabetes, em particular naqueles com fratura 32. Assim, a avaliação de suscetibilidade à fratura não deve ser condicionada apenas à baixa massa óssea ou negligenciada merecendo, na verdade, maior atenção que na população em geral.
R4 – Para confirmar o diagnóstico de osteoporose em mulheres com diabetes, na peri ou pós menopausa, e em homens a partir dos 50 anos, É RECOMENDADO a presença de, pelo menos um dos seguintes critérios: 1) fratura vertebral ou quadril por fragilidade; 2) Risco de fratura alto ou muito alto em 10 anos pelo FRAX Brasil ajustado ou 3) T-score da DMO ≤ -2,0 na coluna lombar ou fêmur proximal.
| Classe I | Nível C |
Sumário de Evidências:
- A estratégia de avaliação do risco de fratura no DM envolve o uso das ferramentas aplicadas na população geral, com algumas particularidades. Assim, o diagnóstico de osteoporose em mulheres na peri ou pós-menopausa e em homens ≥ 50 anos com DM deve ser feito de acordo com as diretrizes atuais para o diagnóstico de osteoporose 48, 49. Entretanto, há considerações específicas relacionadas ao DM que devem ser observadas.
- Pacientes com DM com fratura por fragilidade em fêmur proximal ou fratura vertebral possuem alto risco de novas fraturas e devem ser diagnosticados como tendo osteoporose, independentemente do T-score da DMO. Da mesma forma, pacientes com risco alto ou muito alto de fratura, avaliado pelo FRAX Brasil (ajustado para diabetes conforme recomendação 2a), devem receber tratamento farmacológico para prevenção de fraturas.
- O diagnóstico de osteoporose em pacientes com DM também pode ser feito pelo T-score da DMO em coluna lombar e/ou sítios femorais, mas o ponto de corte sugerido para essa população é diferente do da população geral 50.
- Embora a DMO tenda a subestimar o risco de fratura no DM, existe associação negativa entre DMO e fratura nesta população. Uma análise em conjunto de três grandes estudos prospectivos observacionais mostrou que para um mesmo nível de T-score do fêmur proximal, o risco de fratura de quadril em qualquer idade é maior no DM2 do que na população sem DM 50. Adicionalmente, o estudo sugeriu que, para um mesmo risco de fratura, a diferença de T-score no colo do fêmur entre mulheres com e sem diabetes é 0,5; ou seja, a probabilidade de fratura de quadril de uma mulher com diabetes com T-score de -2,0 é semelhante à de uma mulher não diabética com T-score de -2,5 no colo do fêmur. Fundamentado nesse estudo, foi considerado um T-score ≤ -2,0 para diagnóstico de osteoporose em mulheres na peri e pós-menopausa e em homens a partir dos 50 anos de idade com DM2.
R5 – DEVE SER CONSIDERADO, quando disponível, a realização do TBS combinado ao FRAX, para predizer o risco de fratura no DM em mulheres e homens, a partir dos 50 anos.
| Classe IIa | Nível B |
Sumário de Evidências:
- O TBS (Trabecular Bone Score) é um parâmetro de textura óssea baseado em imagem de DXA da coluna que avalia a variação dos níveis de cinza dos pixels da imagem, sendo uma imagem mais homogênea indicativa de microarquitetura óssea mais preservada 51. Estudos prévios mostraram que o TBS é um fator de risco para fratura independente da DMO 54,56. Ao contrário da DMO, o TBS captura alteração de qualidade óssea no DM2. Em estudo retrospectivo da coorte de Manitoba, Leslie e colaboradores avaliaram 29.407 mulheres com mais de 50 anos (2.356 com DM, sendo a grande maioria DM2). Os autores observaram DMO elevada e TBS diminuído nas mulheres com DM em comparação àquelas sem a doença. As estimativas de DMO e TBS tiveram desempenho semelhante na predição de fratura em mulheres com e sem diagnóstico de DM. Adicionalmente, os autores descreveram que a combinação das medidas de DMO e TBS aprimora a predição de fratura em mulheres com DM2 52.
- Apesar de estudos adicionais terem confirmado redução do TBS em pacientes com DM em comparação a indivíduos sem DM 53, esse achado não é universal 54. As características da população estudada podem explicar, em parte, a heterogeneidade entre os estudos, uma vez que pacientes com DM2 com mau controle glicêmico, complicações relacionadas ao diabetes e/ou maior tempo de doença tendem a ter maior redução do TBS 15, 55. Adicionalmente, essa diferença entre os estudos poderia ser explicada pela metodologia empregada. A maioria dos estudos comparou valores não ajustados de TBS, enquanto outros fizeram ajustes para composição corporal e (IMC), que sabidamente influenciam a medida do TBS 56. Nesse sentido, Palomo e colaboradores demonstraram que apesar do TBS ter sido menor em mulheres na pós-menopausa com DM do que naquelas sem diabetes em análises não ajustadas, essa diferença desapareceu em modelos ajustados para um índice que estima a quantidade de tecido mole em região abdominal (Soft Tissue Thickness, STT) 57.
- Esse achado também foi observado por Leslie et al em um estudo prospectivo observacional que incluiu 73.105 indivíduos com e sem DM 58. Nesta população, o TBS não ajustado foi menor em mulheres e em homens com DMs do que em seus pares sem DM. Todavia, surpreendentemente, o TBS corrigido para o STT foi maior na população com diabetes do que naqueles indivíduos sem a doença. Apesar destes novos dados, o TBS continua sendo um bom preditor de fratura nessa população, mesmo quando ajustado para o STT 58. Assim, em congruência com a recomendação da ISCD 59, 60, o TBS, quando disponível, deve ser utilizado em conjunto com o FRAX para ajustar o risco de fraturas em pacientes com DM.
INTERVENÇÕES NÃO-FARMACOLÓGICAS
R6 – A reposição de cálcio na dieta, entre 1-1,2g ao dia, associada à vitamina D, juntamente com a farmacoterapia específica, É RECOMENDADA para o tratamento da osteoporose em pessoas com diabetes com o objetivo de reduzir o risco de fraturas.
| Classe I | Nível B |
Sumário de evidências:
- Os estudos pivotais que utilizaram fármacos no tratamento da osteoporose sempre tiveram como base do tratamento a suplementação de cálcio e vitamina D como tratamento não farmacológico.113,114,118,119
- O potencial efeito sobre risco de fratura com a suplementação de cálcio e vitamina D isoladamente é controverso. Mais estudos são necessários para determinar o impacto da suplementação de cálcio sobre o risco cardiovascular em pessoas com DM.
- Meta-análises e revisões sistemáticas mostram que a suplementação combinada de cálcio e vitamina D pode reduzir o risco de fraturas em populações institucionalizadas ou com alto risco de fraturas, mas não há evidências de benefício consistente em adultos da comunidade, incluindo pacientes com DM 62,63,64.
- O maior ensaio clínico randomizado (WHI) não demonstrou redução significativa de fraturas totais ou de quadril com suplementação de cálcio (1000 mg/dia) e vitamina D (400 IU/dia) em mulheres pós-menopáusicas, embora análises de subgrupos sugiram benefício modesto em mulheres ≥60 anos, mas sem impacto significativo na população geral ou com DM. A suplementação de vitamina D isoladamente também não mostrou benefício consistente na redução de fraturas. 166
- No ensaio clínico de Chapuy e cols (1992), 3.270 mulheres saudáveis porém institucionalizadas, e sem DM com idade 84±6 anos foram randomizadas para suplementação de 1.200 mg de cálcio e 800 UI de colecalciferol ou placebo diariamente por 18 meses. Entre as mulheres que completaram o estudo, o número de fraturas de quadril foi 43% mais baixo (p=0,043) e o número total de fraturas não-vertebrais foi 32% menor (p=0,015) entre mulheres que trataram com vitamina D3 e cálcio, comparativamente às que usaram placebo. A DMO do fêmur proximal aumentou 2,7% no grupo cálcio-vitamina D3 e diminuiu 4,6% no grupo placebo (p<0,001). Importante colocar que o benefício ocorreu em mulheres institucionalizadas com baixa ingesta de cálcio e baixa exposição solar. Não há dados sobre a presença de DM neste estudo 61.
- Uma metanálise de 16 ensaios clínicos randomizados estudando o efeito da suplementação de cálcio associado à vitamina D em idosos da população geral e institucionalizados mostrou que a suplementação combinada de cálcio e vitamina D reduz o risco de fraturas em 22% (RR: 0,88 95% IC 0,78-0,99). A redução de risco, no entanto, ocorreu apenas nos pacientes institucionalizados: RR 0,71 (IC95% 0,57-0,89). 62
- Outra metanálise avaliou 8 ensaios clínicos randomizados com 30.970 idosos da comunidade e idosos institucionalizados, comparando a suplementação de cálcio (500-1200 mg/dia) associado à vitamina D (400-800 UI). Houve uma redução de 15% em fraturas totais RR 0,85 (95% IC 0,73-0,98) e de 30% em fraturas de quadril RR 0,70 (95%IC 0,56-0,87). Não há informação sobre análise específica em pessoas com DM 63
- As metanálises sugerem, de uma forma geral, haver proteção contra fraturas em idosos da comunidade, e em pacientes institucionalizados 62,64. Essas evidências são limitadas, e não se estendem a pacientes com DM.
NOTA IMPORTANTE 4: SUPLEMENTAÇÃO ISOLADA DE CÁLCIO
- A suplementação isolada de cálcio foi associada à maior risco cardiovascular em pessoas com DM.
- Uma análise retrospectiva de 435.374 participantes do UK Biobank avaliou interações da suplementação de cálcio e a presença de DM em um período de 8,1 a 11,2 anos com 26.374 eventos cardiovasculares e 20.526 mortes documentadas. Após análise multivariada, a suplementação de cálcio foi significativamente associada a maior risco de incidência de eventos cardiovasculares (HR 1.34; IC95% 1,14 a 1,57); mortalidade cardiovascular (HR 1,67 IC95% 1,19-2,23) e mortalidade por todas as causas HR 1,44 IC95% 1,20-1,72) nas pessoas com DM, enquanto que nenhuma associação foi observada em pacientes sem DM. 69
VITAMINA D NO DM
R7 – A suplementação com vitamina D3, em pacientes com diabetes, DEVE SER CONSIDERADA para prevenção e/ou tratamento adjuvante da osteoporose.
| Classe IIa | Nível B |
Sumário de Evidências:
- Revisões sistemáticas e meta-análises de ensaios clínicos randomizados mostram que a suplementação de vitamina D sozinha, em doses usuais (400–2000 UI/dia), não reduz a incidência de fraturas, nem promove aumento significativo da DMO em adultos da comunidade, incluindo subgrupos com DM e osteoporose. A suplementação de vitamina D isoladamente não reduz o risco de fraturas nem aumenta de forma clinicamente relevante a (DMO) em adultos com DM e osteoporose, exceto em casos de deficiência comprovada de vitamina D. O benefício da suplementação é restrito a indivíduos institucionalizados ou com deficiência grave de vitamina D (<25–30 nmol/L), nos quais pode haver modesto aumento da DMO e possível redução de fraturas. 165
- A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia recomenda que os níveis de 25-OHD sejam mantidos acima de 30 ng/mL nos idosos e naqueles com alguma condição crônica que aumente o risco de fratura, como o DM 70. Esse nível pode ser alcançado de 1.000 a 2.000 UI/dia ou dose equivalente semanal.
- Burt et al. avaliaram o efeito de doses elevadas de vitamina D (4.000 e 10.000 UI/dia) por 3 anos e encontraram que, nestas doses, a vitamina D pode impactar negativamente a estrutura óssea, particularmente em mulheres na menopausa, sugerindo que doses altas de vitamina D por tempo prolongado devem ser evitadas 71, 72.
- Esta regra não se aplica a pessoas com DM que tenham sido submetidas a cirurgia bariátrica, nas quais a dose deve ser mantida entre 3.000 e 6.000 UI/dia de acordo com a necessidade. Dados da literatura mostram que a suplementação de citrato de cálcio, vitamina D 16.000 UI/semana, conteúdo proteico apropriado, associados à prática de exercício aeróbico e resistido mitigam a perda óssea que ocorre após a cirurgia bariátrica 73.
TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA OSTEOPOROSE EM PACIENTES COM DM
R8 – É RECOMENDADO o uso de bisfosfonatos como primeira opção para a prevenção de fraturas e ganho de massa óssea em pacientes com DM não classificados como tendo muito alto risco de fratura.
| Classe I | Nível B |
Sumário de evidências:
- Até o momento, não há estudos randomizados dedicados ao tratamento da osteoporose especificamente em pacientes com DM, e tendo como desfecho primário, redução de fraturas. Os estudos citados são análises post hoc de estudos pivotais em osteoporose, que evidenciaram eficácia semelhante aos anti reabsortivos no DM (Ver tabelas 1 e 2).
Alendronato
- No estudo FIT (alendronato), análise post hoc com indivíduos com DM2 104 e avaliação da evolução da DMO mostrou que a resposta de ganho de massa óssea no grupo DM é semelhante à do grupo sem DM.
- Uma análise de dados de uma coorte dinamarquesa encontrou redução do risco de fratura em pessoas com DM em uso de alendronato, sugerindo que a baixa remodelação óssea característica da doença não altera a eficácia anti-fratura dos anti reabsortivos 11.
Risedronato
- Análise post hoc de estudos em indivíduos com DM2 também mostrou aumento da DMO comparável ao grupo controle, em resposta ao uso de risedronato. 105.
R9 – O denosumabe DEVE SER CONSIDERADO como um agente de segunda linha para o tratamento da osteoporose em pessoas com DM com alto ou muito alto risco de fratura, para aumento da DMO e redução de fraturas vertebrais.
| Classe IIa | Nível B |
Sumário de evidências:
- Em análise post hoc do estudo FREEDOM com seguimento de 3 anos e da sua extensão, por 7 anos, envolvendo 508 pacientes com DM2, dos quais 266 receberam denosumabe e 242 placebo, o denosumabe foi eficaz em aumentar a DMO e reduzir risco de fratura vertebral.
- Nesta análise post hoc, observou-se maior ocorrência de fratura não-vertebral (principalmente em costela e antebraço) no grupo DM2 em uso de denosumabe (11,7%), comparado ao grupo DM2 em uso de placebo (5,7%) (HR 1,94, IC95% 1,0-3,7, p=0,046). Este padrão não foi observado em indivíduos sem DM tratados com denosumabe e placebo. Todavia esse aumento de fraturas não vertebrais em indivíduos com DM2 não foi replicado durante a extensão do estudo FREEDOM. Os autores não encontraram uma justificativa plausível para esse achado e comentam sobre as limitações de análises post hoc, não sendo possível extrair conclusões definitivas 106.
NOTA IMPORTANTE 5: DENOSUMABE
- Existe preocupação quanto ao uso do denosumabe em pacientes mais jovens, pelo risco de rebote da remodelação, perda rápida de massa óssea e múltiplas fraturas vertebrais após a interrupção do denosumabe 107. Para evitar essa complicação, recomenda-se sempre sequenciar o denosumabe com ácido zoledrônico ou, em algumas situações, alendronato 108.
- Existe preocupação quanto à possibilidade de maior risco de fratura não vertebral (vide sumário de evidências).
Agentes anabólicos
Teriparatida
R10 – Em pacientes com diabetes e muito alto risco de fratura, o uso da teriparatida DEVE SER CONSIDERADO, por promover maior aumento de massa óssea e redução de fraturas não-vertebrais.
| Classe IIa | Nível B |
Sumário de evidências:
- Existem poucos dados sobre os benefícios da teriparatida no tratamento da osteoporose em pacientes com o DM. Em uma análise post hoc de estudo observacional, Schwartz et al. observaram que a teriparatida melhorou a DMO do colo femoral de forma mais significativa no grupo com DM2 do que no grupo sem DM, embora a redução de fratura não-vertebral tenha sido semelhante nos dois grupos 112.
Romosozumabe
R11 – O romosozumabe PODE SER CONSIDERADO para o tratamento da osteoporose em mulheres com DM e muito alto risco de fratura, sem história de eventos cardiovasculares.
| Classe IIb | Nível C |
Sumário de evidências:
- O romosozumabe, um anticorpo monoclonal anti-esclerostina, tem efeito duplo de aumentar a formação e reduzir a reabsorção óssea. Não existem dados sobre os efeitos esqueléticos do romosozumabe em indivíduos com DM. Os dados são inferidos a partir de ensaios clínicos que incluíram mulheres na pós-menopausa. Embora os estudos tenham incluído mulheres com DM, não existe análise específica neste subgrupo.
- O estudo Active-Controlled Fracture Study in Postmenopausal Women with Osteoporosis at High Risk (ARCH), que comparou romosozumabe com alendronato em mulheres na pós-menopausa, demonstrou maior eficácia do romosozumabe em aumentar a DMO e reduzir risco de fratura vertebral e fraturas clínicas em mulheres com muito alto risco de fratura que o alendronato. Esse mesmo estudo mostrou um desequilíbrio de eventos cardiovasculares entre os grupos, com maior incidência no grupo romosozumabe 113.
- O estudo pivotal do romosozumabe The Fracture Study in Postmenopausal Women with Osteoporosis (FRAME) não demonstrou tal diferença 114.
- Há uma discussão de que o romosozumabe poderia aumentar o risco cardiovascular, ou se o alendronato é que seria protetor. O romosozumabe teve sua aprovação condicionada à ausência de infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular encefálico isquêmico no último ano. Essa contraindicação pode ser particularmente importante em pacientes com DM, que apresentam maior risco potencial de eventos cardiovasculares do que a população geral.
Raloxifeno
- Análise retrospectiva de subgrupos de estudos pivotais do raloxifeno (MORE e RUTH) revelou redução de fratura vertebral em indivíduos com DM2 109,111. Esses dados foram corroborados por estudo de registro de dados dinamarqueses 11.
NOTA IMPORTANTE 6: INFLUÊNCIA DO DM NA EFICÁCIA DE TERAPIAS
- A fim de determinar se o DM2 influenciaria a eficácia anti fratura das terapias anti reabsortivas, foi feita uma análise secundária de 96,385 pacientes (6,8% com DM2), a partir de registros da Foundation for the National Institutes of Health (FNIH) – American Society for Bone and Mineral Research (ASBMR). O banco incluiu dados de uma grande coorte (Study to Advance Bone Mineral Density (BMD) as a Regulatory Endpoint – SABRE) de pacientes que participaram de estudos randomizados que testaram terapias anti osteoporóticas. Após análise por Cox regressão de 15 estudos randomizados que testaram bisfosfonatos, SERM, terapia estrogênica, denosumabe e odanacatibe, os pesquisadores concluíram que, utilizando dados agrupados de todas as medicações, ter ou não DM2 não interferiu na eficácia anti fratura (vertebral, não vertebral e de fêmur) ou no aumento da DMO alcançados por estes pacientes 115.
- Quando os estudos foram considerados individualmente, observou-se interação significativa entre o tratamento com denosumabe e a presença ou não de DM2 (p=0,01), com aumento do risco de fratura não vertebral em pacientes com DM2 e redução em pacientes sem diabetes 115. Dados de metanálises e estudos post hoc demonstraram que o DM2 não interfere no aumento da DMO ou na eficácia anti fratura (vertebral, não vertebral e de fêmur) alcançados pela maioria dos tratamentos antiosteoporóticos 115.
- Estudos post-hoc mostraram maior ocorrência de fratura não-vertebral (principalmente em costela e antebraço) no grupo DM2 em uso de denosumabe comparado ao grupo DM2 em uso de placebo 106, 115.
NOTA IMPORTANTE 7: EFEITOS ADVERSOS DAS TERAPIAS ANTI-FRATURAS A SEREM CONSIDERADOS NO PACIENTE COM DM
- O raloxifeno pode aumentar o risco de fenômenos tromboembólicos, o que deve ser considerado em mulheres com DM em geral, particularmente nas mais idosas.
- O romosozumabe é contraindicado em pacientes que sofreram infarto do miocárdio ou acidente vascular encefálico isquêmico no ano anterior. Além disso, deve ser considerado se benefícios superam os riscos em pacientes com outros fatores cardiovasculares de risco. Assim, o romosozumabe deve ser usado com cautela em pacientes com DM e risco cardiovascular alto e muito alto.
| TABELA 1- EFEITO DOS AGENTES UTILIZADOS NO TRATAMENTO DA OSTEOPOROSE EM PACIENTES COM DM | ||||
| REF | FÁRMACO | DESFECHO | POPULAÇÃO | RESULTADO |
| Johnell et al., 2004 (109) | Raloxifeno | Fraturas vertebrais. |
Mulheres pós-menopausa com osteoporose: n=7.70566,3±7,0 anos DM2 2,5% Seguimento: 3-5,6 anos. |
Redução de fraturas vertebrais no DM2. Risco de tromboembolismo. |
| Keegan et al., 2004 (104) | Alendronato | Aumento de massa óssea. |
Mulheres pós-menopausa com DM2 e baixa DMO n=6.458; 54-81 anos DM2: 4,5% Seguimento: 3 anos |
Ganho de DMO semelhante entre DM2 e não DM sugerindo eficácia do alendronato no DM2. |
| Ensrud et al., 2008 (110) | Raloxifeno | Fraturas vertebrais e não vertebrais. |
Mulheres pós-menopausa em risco de doença cardíaca. n=10.101≥55 anos; DM2 45,5% Seguimento: 5,6 anos |
Redução similar de fraturas vertebrais. Sem efeito em fraturas não vertebrais, com ou sem DM2. |
| Vestergaard et al., 2011 (11) | Bisfosfonatos e raloxifeno | Fraturas em geral |
Pacientes com DM2 em uso de anti osteoporóticos n=103.562 (expostos), n=310.683 (controles) DM2: 5,7%; 70,5 anos de idade |
Redução similar do risco de fraturas entre DM2 e Não-DM. |
| Inoue et al., 2016 (105) | Risedronato | Aumento da massa óssea |
Osteoporose com comorbidades (DM2, HAS, dislipidemia); n=885 DM2 6%; 71,6±6,6 anos de idade |
Aumento semelhante da DMO entre grupos com e sem DM2. |
| Schwartz et al., 2016 (40) | Teriparatida |
Fraturas não vertebrais. Aumento da massa óssea, |
Osteoporose em DM2. n=4.042 DM2 7.2% Idade 60,2 anos Seguimento: 2 anos |
Maior ganho de DMO no colo femoral no DM2 do que nos sem DM; aumento semelhante de DMO entre os grupos na coluna lombar e fêmur total; Redução de fratura não vertebral semelhante entre os grupos com e sem DM2. |
| Ferrari et al., 2020 (106) | Denosumabe |
Fraturas vertebrais e não vertebrais. Aumento da massa óssea. |
Mulheres pós-menopausa com osteoporose n= 7.808 DM2: 6,5% Idade: 73,5 anos Seguimento: 10 anos |
Aumento Similar da DMO Redução do risco de fratura vertebral no DM2 e não DM; Maior risco de fratura não vertebral no DM2. |
| Eastell et al., 2022 (115) |
BisfosfonatosSERM, Terapia estrogênica, Denosumabe Odanacatibe |
Fraturas vertebrais, não-vertebrais, de quadril e em geral. |
Pacientes em terapias anti-reabsortivas n= 96.385 DM2: 6,8% Idade: 70 anos |
DM2 não influenciou eficácia anti fratura na maioria das terapias, exceto o denosumabe. |
NOTA IMPORTANTE 8: EFEITO DO TRATAMENTO DA OSTEOPOROSE NA GLICEMIA DE PACIENTES COM DM
- Os anti-reabsortivos não aumentam a incidência de DM tipo 2, nem pioram o controle metabólico. Estudo recente, utilizando meta-análise, reafirmou que a terapia anti reabsortiva não tem efeito hiperglicemiante 117.
BISFOSFONATOS - O impacto dos bisfosfonatos e do denosumabe na glicemia foi avaliado em análise post hoc dos subgrupos de indivíduos que tiveram a glicose sérica estimada nos grandes estudos pivotais do alendronato, o Fracture Intervention Trial (FIT) (N = 6151; 4 anos), do ácido zoledrônico, o Health Outcomes and Reduced Incidence with Zoledronic Acid Once Yearly Pivotal Fracture Trial (HORIZON-PFT) (N = 7113; 3 anos) e do denosumabe, o Fracture Reduction Evaluation of Denosumab in Osteoporosis Every 6 Months (FREEDOM) (N = 7076; 3 anos) 118,120.
- Os dados dos indivíduos em uso de anti reabsortivos foram comparados aos do controle. Não houve diferença nas glicemias entre estes grupos. Não existiu diferença na incidência de DM nos três estudos entre os grupos em uso de anti reabsortivos e controles. Além disso, a diferença de peso entre os grupos controle e em uso de anti reabsortivo foi menor que 1 kg 120. É notável que as diferenças nas alterações médias da glicose plasmática em jejum entre os grupos de tratamento e placebo não foram significativas, sendo no FIT= -0,47 mg/dL, no HORIZON= 0,20 mg/dL e no FREEDOM= 0,09, todos com p > 0,6.
- Nessa mesma linha, estudo prévio sugeriu que o alendronato melhora a glicemia e a resistência à insulina em mulheres com pré-diabetes 121. Neste estudo, 60 mulheres, divididas em dois grupos de 30 pessoas, placebo e alendronato, foram avaliadas no período basal e 12 semanas após tratamento com alendronato (70 mg) ou placebo. O grupo que foi tratado com alendronato apresentou redução das taxas de glicose de jejum (102,43±1,46] mg/dL vs 94,23 ± 1,17 mg/dL, P = 0,001), de insulina no tempo 120 do TTOG (101,86 ± 15,70 mU/L vs 72,60 ± 11,36 mU/L, P = 0,026) minutos e HbA1c (5,60 ± 0.06 % vs 5,40 ± %, P = 0,001) após as 12 semanas.
DENOSUMABE - Denosumabe, na dose de 60mg, levou a maior sensibilidade hepática à insulina e queda na HbA1c após 12 semanas 107. Ainda, no FREEDOM, entre as mulheres que tinham o diagnóstico de DMs e não estavam em uso de antidiabético, as que foram tratadas com denosumabe, apresentaram queda na média de glicose de jejum (-6.8 mg/dL; 95% CI, -12.6 to -1.0; P = .02) 122
RALOXIFENO - O efeito do raloxifeno sobre a glicemia de pacientes com DM2 foi testado em um pequeno grupo de mulheres na pós-menopausa. Os resultados sugeriram que o raloxifeno não interferiu na HBA1c, colesterol, glicemia, insulina sérica de jejum, nem na sensibilidade à insulina 123. Adicionalmente, um grupo de mulheres em tratamento com raloxifeno foi submetido a avaliação de sensibilidade insulínica por meio do teste de clamp euglicêmico hiperinsulinêmico. A taxa de desaparecimento de glicose antes do tratamento com raloxifeno que foi 5,18 + 0,31 mg/kg.min não diferiu da taxa após o uso do medicamento 4,82 + 0,40 mg/kg.min 123.
TERIPARATIDA: - Existem resultados conflitantes quanto aos efeitos da teriparatida na glicemia, obtidos em estudos clínicos com pequeno número amostral. Celer et al. avaliaram 23 mulheres com osteoporose grave (T-score ≤ -4,0 e fratura vertebral) e observaram aumento de glicemia (antes= 85,6 + 12,7 vs após 6 meses= 92,9 + 14,7 mg/dL, P < 0,01) de HOMA-IR após 6 meses de uso de teriparatida 124.
- Anastasilakis et al. avaliaram, em um grupo de 23 mulheres na pós-menopausa, o comportamento da glucose sérica durante TTOG antes do início do tratamento com teriparatida, 1 hora após a primeira administração (agudo) e 6 meses após o início do tratamento (crônico). Na comparação entre os TTOGs basal e agudo, os autores verificaram diferenças significativas nos tempos 90 e 120 minutos nas glicemia aos 90 min (168,3±9,8 vs. 180,6 ± 9,2 mg/dL, p<0,05) e aos 120 min (152,0 ± 8,7 vs. 170,5±7,8 mg/dL, p<0. 01). Já na comparação entre os exame basal e crônico houve diferença apenas aos 90 min (168,3±9,8 vs. 184,5±13,3 mg/dL, p<0,05). descreveram que a teriparatida tem maior influência na glicemia logo após sua administração (1 hora), mas diminui com a manutenção do tratamento 6 meses 125.
- Posteriormente, o mesmo grupo comparou o efeito da teriparatida (basal e 6 meses) sobre a resistência insulínica e a glicemia no tratamento da osteoporose usando como comparativo o efeito da paratireoidectomia em pacientes com hiperparatireoidismo primário (basal e 6 meses após). O tratamento com teriparatida não afetou a glicemia e resistência à insulina, enquanto a paratireoidectomia melhorou a resistência insulínica 126.
ROMOSOZUMABE - Não há dados referentes ao efeito do romosozumabe sobre a glicemia, a incidência de DM2 e controle do DM2.
USO DE AGENTES ANTI-DIABÉTICOS EM PACIENTES COM
OSTEOPOROSE
R12 – Na escolha do agente anti-diabético é RECOMENDADO considerar o impacto na saúde óssea. Nenhum anti-diabético é contra-indicado, todavia o uso de tiazolidinedionas e canagliflozina requer avaliação cuidadosa da relação risco-benefício em virtude da maior incidência de fraturas, sobretudo com a primeira classe de drogas.
| Classe I | Nível B |
Sumário de Evidências:
- É conhecido que muitos agentes utilizados no tratamento do DM podem influenciar a massa óssea e o risco de fratura (Tabela 2 e apêndice).
| TABELA 2. EFEITO DE AGENTES ANTI-DIABÉTICOS NA MASSA ÓSSEA. | ||||||
| Agente | EFEITO NA MASSA ÓSSEA | EVIDÊNCIA | REF | |||
| TZD | Maior risco de fraturas, em mulheres. Pode reduzir DMO em mulheres na pós- menopausa. | Metanálise, 10 ECR, 13.715 participantes: aumento significativo da incidência de fratura (OR 1,45, IC95% 1,18–1,79, p < 0.001); risco duplicado em mulheres (OR 2,23, IC 95% 1,65–3,01, p < 0.001) com rosiglitazona e pioglitazona. | Loke, 2009 (80) | |||
| ERC, 50 mulheres pós-menopausa, 14 semanas de rosiglitazona: redução significativa de DMO no fêmur total com rosiglitazona (-1,9%) em comparação com controle (-0,2%). | Grey, 2007 (81) | |||||
| Metanálise de estudos observacionais, 6.847.158 participantes, 14 estudos que avaliaram a associação de TZD e fraturas: TZD associada a aumento no risco de fraturas (RR 1,24; IC 95% 1,13-1,35). | Hidayat, 2019 (82) | |||||
| MTF | Neutro para risco de fraturas. Parece reduzir risco de osteoporose. | Metanálise de estudos observacionais, 6.847.158 participantes, 12 estudos que avaliaram a associação de MTF e fraturas: MTF associada a menor risco de fraturas (RR 0,86, IC 95% 0,75-0,99). | Hidayat, 2019 (82) | |||
| Coorte, 11.458 pacientes com DM2: menor prevalência de OP em mulheres que usavam MTF (OR = 0,775, IC 95%: 0,633–0,948; p=0,013). | Sun, 2022 (83) | |||||
| Metanálise, 11 estudos, 635.945 participantes com DM2: sem redução de risco de fratura (RR 0,91, IC 95% 0,81–1,02). | Wang, 2022 (84) | |||||
| SU | Maior risco de fraturas relacionado a quedas por hipoglicemia. | ECR, 4.360 pacientes: incidência semelhante de fratura entre os usuários de metformina e glibenclamida | Kahn 2006 (85) | |||
| Coorte, 501.724 participantes, com DM2: maior incidência de fratura de quadril com sulfonilureias (HR 1,64, IC 95% 1,54-1,75)2 | Starup‐Linde 2017 (86) | |||||
| ISGLT2 | Neutro, com potencial efeito de redução de DMO e aumento de risco de fraturas, sobretudo com canagliflozina. | ECR, 716 pacientes com DM2: redução da DMO em fêmur total com canagliflozina | Bilezikian 2016 (87) | |||
| Metanálise, 38 ERCs, 30.384 pacientes: em comparação com placebo, canagliflozina (OR 1,15; IC 95% 0,71-1,88), dapagliflozina (OR 0,68; IC 95% 0,37-1,25) e empagliflozina (OR 0,93; IC 95% 0,74-1,18) não foram significativamente associados com maior risco de fratura | Tang 2016 (88) | |||||
| ERC, 10.194 pacientes com DM2: aumento do risco de fratura com canagliflozina (4,0%) vs não usuários dessa medicação (2,6%) | Watts 2016 (89) | |||||
| Estudo populacional, 70.694 pacientes com DM2: sem diferença em fraturas entre usuários de AGLP1 e iSGLT2 (HR 0,94; IC 95% 0.86-1.03). | Patil 2023 (90) | |||||
| Estudo populacional, 3.957 mulheres com DM2 >65 anos, divididas em 2 grupos: usuárias de iSGLT2 (n=1.331; dapagliflozina, empagliflozina, ipragliflozina e ertugliflozina) e usuárias de outros antidiabéticos que não as TZDs (n= 2.626), seguidas por 5 anos. Houve maior risco de fratura vertebral no grupo dos iSGLT2 ((HR 1,40; IC 95% 1,00-1.96). | Lee et al, 2024 (91) | |||||
| IDPP4 | Neutro, com potencial efeito de aumento de DMO e redução no risco de fraturas. | Metanálise, 28 ERCs, pacientes com DM2. 11.880 em iDPP4 vs placebo ou outros tratamentos: menor risco de fraturas de iDPP4 vs grupo comparador (OR 0,6; IC 95% 0.37-0.99); excluindo TZD e sulfonilureias, mantem menor risco com iDPP4 (OR 0,56; IC 95% 0,33-0,93) | Monami 2011 (92) | |||
| Metanalise, 117 ERCs, 165.081 pacientes com DM2: iDPP4, iSGLT2 e AR-GLP-1 não aumentaram o risco de fraturas em relação a MTF, sulfonilureias, TZD, insulina e placebo | Chai S 2022 (93) | |||||
| Estudo populacional, 32,266 pacientes com DM2: sem diferença no risco de fraturas maiores entre usuários de aGLP-1 vs iDPP4 (HR 0,89; IC 95% 0,76-1,05) | Al-Mashhadi ZK , 2022 (94) | |||||
| Metanálise, 10 estudos, 214.541 pacientes com DM2, seguimento 6 meses – 5 anos: uso de iDPP4 associado a aumento de DMO (SMD 0,15; IC 95% 0,03-0,26) | Huang 2024 (95) | |||||
| aGLP-1 | Neutro ou potencial efeito benéfico em aumento de massa óssea e redução do risco de fratura, sobretudo com a liraglutida. Há escassez de dados sobre o impacto na saúde óssea entre os agentes com maior potencial de perda ponderal. | Metanálise, 38 ERCs, 39.795 pacientes com DM2: liraglutida e lixisenatida associados a menor risco de fraturas em relação a placebo / outros antidiabéticos, especialmente quando usados por longo período (>52 semanas; OR 0,71; IC95% 0,56-0,91) | Cheng L, 2019 (96) | |||
| Metanálise, 7 ERCs, pacientes com DM2, 2.918 com aGLP-1, 1.337 com outros antidiabéticos: não houve aumento no risco de fraturas entre a GLP 1 em relação a outros antidiabéticos (OR 0,75; IC 95% 0,28-2,02) | Mabilleau 2014 (97) | |||||
| ECR, 56 pacientes com DM2 em uso de liraglutida vs placebo, por 26 semanas: liraglutida preservou a DMO apesar da perda de peso; DMO reduziu no grupo placebo (p=0.01 entre os grupos) | Hygum K , 2020 (98) | |||||
| Metanálise, 26 ERCs, 2.268 pacientes com DM2: aGLP-1 aumentaram DMO em coluna e colo de fêmur em relação ao placebo / outros antidiabéticos | Li X 2024 (99) | |||||
| Metanálise, 19 ERCs, 4.914 pacientes com DM2: os aGLP-1 levaram a aumento de DMO em relação ao placebo | Saadi 2024 (100) | |||||
| Metanálise, 44 ERCs, 47.823 pacientes com DM2: os aGLP-1 levaram a redução do risco de fratura em relação ao placebo e ao tratamento com outros antidiabéticos (RR 0,77 (IC 95% 0,61-0,96). Na análise de subgrupo, apenas a liraglutida foi associada à redução do risco de fraturas (RR 0,42 (IC 95% 0,21-0,85) | Zhang et al, 2025 (101) | |||||
| INS | Aumento no risco de fraturas, devido a hipoglicemias e quedas | Estudo prospectivo, seguimento 9.4 anos, 9.654 mulheres > 65 anos de idade: mulheres com diabetes tiveram mais fraturas de quadril, úmero e pé. Usuários de insulina tinham mais risco de fraturas de pé (OR 2,66; IC 95% 1,18-6,02 em relação a não diabéticos) | Schwartz 2001 (102) | |||
| Estudo prospectivo, seguimento 2 anos, 3.654 participantes, >49 anos de idade: insulina foi fator de risco para fratura (OR 5,9; IC 95% 2,6-13,5) | Ivers RQ , 2001 (103) | |||||
| Metanálise de estudos observacionais, 6.847.158 participantes, 23 estudos que avaliaram a associação de insulina e fraturas: insulina associada a aumento no risco de fraturas (RR 1,49; IC 95% 1,29-1,73) | Hidayat 2019 (82) | |||||
Legenda: TZD: tiazolidinedionas; MTF: metformina; iSGLT2: inibidores do co-transportador de sódio e glicose tipo 2; iDPP4: Inibidores da dipeptidil peptidase; AR GLP- 1: agonistas do receptor de GLP-1; INS: Insulina, DMO: densidade mineral óssea; OP: osteoporose, ECR: ensaio clínico randomizado, SMD: diferença média padronizada
Tabela de recomendações:
| RECOMENDAÇÃO | Classe | Nível | |
| R1 | É RECOMENDADO considerar o diabetes mellitus como um fator de risco independente para fraturas. | I | B |
| R2 | É RECOMENDADO calcular o risco de fratura pelo FRAX (Fracture Risk Assessment tool), ajustado para diabetes em todas as mulheres e homens com diabetes, a partir dos 50 anos de idade. | I | B |
| R3 | É RECOMENDADO realizar o exame de densitometria óssea (DMO) em mulheres e homens com diabetes, a partir dos 50 anos de idade, quando houver pelo menos 1 fator de risco adicional para fraturas. | I | C |
| R4 | Para confirmar o diagnóstico de osteoporose em mulheres com diabetes, na peri ou pós menopausa, e em homens a partir dos 50 anos, É RECOMENDADO a presença de, pelo menos um dos seguintes critérios: 1) fratura vertebral ou quadril por fragilidade; 2) Risco de fratura alto ou muito alto em 10 anos pelo FRAX Brasil ajustado ou 3) T-score da DMO ≤ -2,0 na coluna lombar ou fêmur proximal. | I | C |
| R5 | DEVE SER CONSIDERADO, quando disponível, a realização do TBS combinado ao FRAX, para predizer o risco de fratura no DM em mulheres e homens, a partir dos 50 anos. | IIa | B |
| R6 | A reposição de cálcio na dieta, entre 1-1,2g ao dia, associada à vitamina D, juntamente com a farmacoterapia específica, É RECOMENDADA para o tratamento da osteoporose em pessoas com diabetes com o objetivo de reduzir o risco de fraturas. | I | B |
| R7 | A suplementação com vitamina D3, em pacientes com diabetes, DEVE SER CONSIDERADA para prevenção e/ou tratamento adjuvante de osteoporose. | IIa | B |
| R8 | É recomendado o uso de bisfosfonatos como primeira opção para a prevenção de fraturas e ganho de massa óssea em pacientes com DM não classificados como tendo muito alto risco de fratura. | I | B |
| R9 | O denosumabe DEVE SER CONSIDERADO como um agente de segunda linha para o tratamento de pessoas com DM com alto ou muito alto risco de fratura, para aumento da DMO e redução de fraturas vertebrais. | IIa | B |
| R10 | Em pacientes com diabetes e muito alto risco de fratura a teriparatida, DEVE SER CONSIDERADA por promover maior aumento de massa óssea e redução de fraturas não-vertebrais. | IIa | B |
| R11 | O romosozumabe PODE SER CONSIDERADO para o tratamento da osteoporose em mulheres com DM e muito alto risco de fratura, sem história de eventos cardiovasculares. | IIb | C |
| R12 | Na escolha do agente anti-diabético é RECOMENDADO considerar o impacto na saúde óssea. Nenhum anti-diabético é contra-indicado, todavia o uso de tiazolidinedionas e canagliflozina requer avaliação cuidadosa da relação risco-benefício, em virtude da maior incidência de fraturas, sobretudo com a primeira classe de drogas. | I | B |
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| APÊNDICE 1 |
| TIAZOLIDINEDIONAS (TZDs) |
|
| METFORMINA |
|
| SULFONILUREIAS |
|
| iSGLT2 |
|
| iDPP4 |
|
| Agonistas do receptor GLP-1 |
|
| INSULINA |
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Francisco José Albuquerque de Paula, Barbara Campolina C Silva, Catarina Brasil d´Alva, Monique Nakayama Ohe, Miguel Madeira, Leonardo Bandeira e Farias, Narriane Chaves Pereira de Holanda, Neuton Dornelas Gomes, Ruy Lyra da Silva Filho, Márcio Weissheimer Lauria, Marcello Casaccia Bertoluci. Diagnóstico e tratamento da osteoporose no paciente com Diabetes. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2025). DOI: 10.29327/5660187.2025-4 , ISBN: 978-65-5941-367-6.