Autores: Miranda-Scippa AMA; Chaves-Fonseca RM; Almeida-Pititto B; Salles JEN; Moura F.
Editor Chefe: Marcello Bertoluci
DOI: 10.29327/5660187.2025-3 | Cite este artigo
Introdução
O transtorno depressivo recorrente (TDR) é uma doença mental que apresenta taxas altas de prevalência ao longo da vida e, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), já é elencado como a principal causa global de “anos vividos com deficiência” 1. No Brasil, um estudo de base populacional conduzido na cidade de São Paulo, descreveu taxa de prevalência de 16,8% ao longo da vida e de 7,5% no último ano 2.
O aparecimento da depressão está ligado a fatores genéticos de predisposição e fatores de risco como histórico familiar de transtorno depressivo, sexo feminino, presença de comorbidades clínicas psiquiátricas e não psiquiátricas, trauma na infância, ser solteiro, viver sozinho, desemprego, luto e tipo de ocupação são consistentemente descritos independentemente do tipo de estudo e dos instrumentos aplicados 1,2,. Mais recentemente, a atualização do protocolo de tratamento da depressão, o Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023, além de reafirmar os fatores supracitados, acrescentou que maior tempo em telas, sedentarismo, usar dispositivos móveis, trabalhar por turnos também aumentam o risco de o individuo desenvolver depressão 3.
Em pessoas com doenças crônicas não transmissíveis, como o diabetes mellitus (DM), a prevalência de transtorno depressivo é 2 a 3 vezes maior que a encontrada na população geral 4,5. De fato, meta-análises mais recentes referem que a prevalência de depressão varia entre 24 e 41% em pessoas com DM 6,7, ressaltando a relevância de se abordar a pessoa com DM quanto a possibilidade do diagnóstico de depressão comórbida.
Independentemente da compreensão exata sobre a relação entre a DM e a depressão, ambas são consideradas patologias crônicas que ocorrem concomitantemente em frequência elevada, fato que levou a sugestão do termo inglês diapression, para denominação dessa comorbidade. Agrega-se também o conhecimento de que juntas tendem a prejudicar ainda mais a qualidade de vida e a funcionalidade daqueles que vivem com DM 8,9,10. Neste sentido, apesar de existirem dados discrepantes com ampla variação nas taxas de prevalência da diapression devido a fatores metodológicos, tais como utilização de diferentes instrumentos para diagnóstico de depressão, grande heterogeneidade das amostras analisadas e tipo de desenho do estudo utilizado ou subtipo de DM, a literatura aponta que a depressão está associada a desfechos piores para o DM 10..
Ainda não se sabe ao certo, a causalidade da diapression, mas ela tem sido atribuída a vários fatores, tais como o impacto psicológico do manejo de uma doença crônica, potencial suscetibilidade genética compartilhada e anormalidades fisiopatológicas comuns, como a desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) e o estado inflamatório presente nelas 5. Neste sentido, fatores de risco, comuns a ambas, como envelhecimento, tabagismo, maus hábitos alimentares, falta de exercícios, presença de outras comorbidades (abuso de alcool, cardiopatia, hipertensão arterial, obesidade entre outras), controle glicêmico inadequado reforçam essas hipoteses 5. Ademais, do ponto de vista genético análises de correlação genética tanto globais quanto locais mostram correlações positivas em todo o genoma e em regiões genômicas específicas entre TDR e DM 2, sugerindo uma etiopatogenia compartilhada e influência genética sinérgica em ambas as condições, que sem dúvida, estabelecem entre sí uma relaçao bidirecioanl 5
Embora a palavra depressão seja comumente usada para designar um estado de tristeza momentâneo, o termo deve ser adequadamente empregado para representar uma doença mental grave que abrange vários sinais e sintomas relacionados ao humor, a cognição, aos sintomas físicos e comportamentais (Ver tabela 1) 3. Apesar desses conhecimentos, a depressão continua sendo insuficientemente diagnosticada e sub tratada. Vários fatores contribuem para tal, como o conceito de que ela não seja uma doença clínica, o estigma social, a sobreposição de sintomas comuns a outras doenças e o medo falso que as pessoas têm de se tornarem dependentes de antidepressivos (AD) 3,.
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana na 5ª edição Texto Revisado (DSM-5-TR- APA) 12 e com a Classificação Internacional de Doenças, 11ª versão (CID-11, OMS) 13, para diagnóstico de um episódio depressivo pertecente ao TDR, é necessário: fazer uma avaliação qualitativa e quantitativa dos sintomas de depressão; assegurar-se de que o tempo mínimo de duração dos sintomas é de 14 dias. Além disso, os sintomas em cada episódio devem estar presentes na maior parte dos dias e do tempo, acarretando sofrimento mental significativo para o indivíduo (prejuízo funcional) 12,13. Essas classificações incluem também o transtorno distímico (distimia ou transtorno depressivo persistente), caracterizado pela manifestação de sintomas depressivos de intensidade leve, presentes por um período mínimo de 2 anos 12,13. Dessa forma, os transtornos depressivos são classificados em:
| QUADRO 1: CLASSIFICAÇÃO DOS TRANSTORNOS DEPRESSIVOS |
|
1- Transtorno depressivo maior: episódio único ou recorrente (TDR) 2- Transtorno distímico (ou transtorno depressivo persistente) 3- Categorizações não especificadas que não preenchem critérios definidos 4- Transtorno depressivo secundário (desencadeado por ação de substâncias lícitas ou ilícitas, ou secundário a outra condição clínica (hipotireoidismo)) 12,13 |
| TABELA 1 - SINTOMAS DEPRESSIVOS | ||
| Característica | Sintomas | |
| Humor | Tristeza, angústia, irritabilidade, ansiedade, apatia. | |
| Pensamento | Alentecimento, ideias de ruína, pessimismo, ideação suicida, planejamento suicida. | |
| Cognição | Dificuldade de concentração, de memória, abulia, anedonia. | |
| Sintomas físicos | Dores, fadiga, falta de energia, disfunção sexual, sintomas gastrintestinais, cardiovasculares. | |
| Funções vegetativas | Alterações de sono e de apetite | |
| Comportamentais | Esquiva de atividades em geral, isolamento social, procrastinação. | |
R1 – É RECOMENDADO o rastreamento de rotina de sintomas depressivos em pessoas com diabetes, através da anamnese com a busca direta de sintomas ou com a aplicação de instrumentos de triagem específicos.
| Classe I | Nível C |
Sumário da Evidência:
- Uma meta-análise que incluiu 20 estudos de caso-controle mostrou uma prevalência de transtorno depressivo associado a DM de 21% (22% para DM 1 e 17% para DM 2) em comparação com 11% encontrado no grupo controle 14.
- Meta-análises mais recentes relatam uma taxa maior que varia entre 24 e 41% de depressão em pessoas com DM 6,7. Estes resultados são mais próximos do descrito em um grande estudo longitudinal prospectivo que incluiu pacientes de diversos países, entre eles participantes do estudo ELSA-Brasil, que mostrou taxa de 28% na prevalência de depressão em portadores de DM 15.
- A depressão foi associada a complicações macrovasculares e a um maior índice de mortalidade por todas as causas 16.
- Considerando que, além de muito prevalente, a depressão é um fator de risco para o agravamento do controle do DM, a sua presença deve ser rotineiramente investigada a cada consulta médica com o clínico, e sintomas como tristeza ou apatia, anedonia (falta de prazer) e comportamento suicida devem ser valorizados no diagnóstico da depressão, visto que fadiga, alterações no apetite e outros sintomas físicos são comuns a ambas 8,17.
- Para investigar a presença da depressão na pessoa com DM, o médico deve fazer perguntas diretas sobre o humor e o comportamento ou pode aplicar instrumentos de avaliação que sirvam de triagem para diagnóstico de depressão. Dentre eles, o Inventário de Beck para Depressão (IBD), a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HADS) e o Questionário de Saúde do Paciente de 9 itens (PHQ-9) foram validados em amostras de pacientes com DM, sendo o PHQ-9 o que apresenta a maior validade, com ponto de corte de 10, o mesmo utilizado para a população geral 8.
NOTA IMPORTANTE 1: ENCAMINHAMENTO PSIQUIÁTRICO
- Diante da suspeita de depressão, os pacientes devem ser encaminhados para avaliação psiquiátrica e caso se confirme o diagnóstico, o tratamento especializado deverá ser instituído. Ademais, o diagnóstico diferencial deverá ser feito posteriormente com o episódio depressivo do transtorno bipolar, através da investigação de episódios de mania ou hipomania prévios, pois se tratando de um episódio de depressão do transtorno bipolar, o tratamento farmacológico será diferente daquele utilizado no TDR.
NOTA IMPORTANTE 3: FATORES DE RISCO PARA DEPRESSÃO
- A depressão está associada a determinados fatores de risco, tais como ser do sexo feminino, ter sobrepeso/obesidade.
- Um estudo transversal populacional conduzido na Áustria mostrou que as mulheres com DM tem quase que três vezes mais chances de serem diagnosticadas com depressão em comparação com as que não têm diabetes. Em homens com DM, o efeito foi menos pronunciado. Fatores como, sobrepeso, obesidade e dependência ao álcool foram identificados como de maior influência para as diferenças de prevalências de depressão entre os sexos masculino e feminino em pessoas com DM 18.
- Um estudo longitudinal, evidenciou que o sexo feminino é fator de risco para depressão em pessoas com DM, ao lado de outros fatores como idade, nível de HbA1c e presença de complicações relacionadas a própria DM 19.
- Uma corte prospectiva conduzida em Taiwan avaliou 38.537 pacientes com DM com transtornos depressivos e 154.148 pessoas com DM sem transtornos depressivos associados, por um período médio de acompanhamento de 5,5 anos. Houve predomínio do sexo feminino (60%) nos casos de associação dessas duas morbidades. A maioria tinha DM 2 (99,4%). Entre os pacientes com depressão, 26,21% apresentavam TDR; 15,96% tinham episódio depressivo único; 48,1% transtorno distímico e 9,72% transtorno depressivo sem outra especificação 16.
R2 – É RECOMENDADO observar se a pessoa com diabetes e depressão está aderindo ao tratamento do DM, pois a presença da depressão dificulta a adesão ao tratamento do diabetes.
| Classe I | Nível C |
Sumário da evidência:
- A literatura aponta que a presença da depressão no indivíduo com DM piora o autocuidado, reduz a adesão aos fármacos, aumentando o risco potencial de complicações microvasculares e macrovasculares diabéticas 7. Ademais, essa comorbidade piora a função cognitiva, aumenta a morbimortalidade, contribuindo para reduzir a qualidade de vida e aumentar os custos com a saúde 11,16. Vale ressaltar também que, pessoas na fase aguda da depressão tendem a ficar mais sedentárias, fumam mais e fazem menos atividade física 11. Alguns pacientes com depressão têm orexia, com tendência a maior avidez por doces e carbohidratos, o que dificulta ainda mais o controle da glicemia e contribui significativamente para a descompensação do DM3.
R3 – Nas pessoas com diabetes e depressão, É RECOMENDADO o tratamento farmacológico com antidepressivos (AD) para remissão da depressão e melhora do controle glicêmico.
| Classe I | Nível B |
Sumário da evidência:
- O tratamento da depressão se baseia essencialmente no uso de AD, nas suas diferentes classes (Quadros 2 e 3) e a escolha por cada um deles dá-se através da identificação de sintomas específicos e dos princípios de segurança e tolerabilidade de cada fármaco 3,20. Estudos apontam que a combinação entre diferentes classes de AD ou associação de substâncias não AD pode produzir respostas mais robustas ou mais rápidas do que a monoterapia com AD, porém em relação ao tratamento da depressão comórbida com a DM, os dados ainda são insuficientes para guiar uma boa prática clínica 3,8,20. No tratamento da depressão, os AD da classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) figuram entre os mais estudados e prescritos (Quadro 2). De fato, estudos mostram que essa classe de medicamentos é muito eficaz, apresenta bom perfil de tolerabilidade e proporciona também no processo de sua ação terapêutica redução da expressão dos marcadores e inflamatórios encontrados no episódio agudo de depressão, além de poder contribuir com a perda de peso nos casos em que também se observa sobrepeso e obesidade 3,20.
- No que tange a diapression, um artigo de revisão que incluiu 12 ensaios clínicos que avaliaram o efeito dos AD na depressão, mostrou que os ISRS, incluindo a paroxetina, a fluoxetina e a sertralina tiveram efeitos moderados na eficácia antidepressiva, quando comparados a placebo 21.
- Uma revisão sistemática com metanálise de 32 ensaios clínicos randomizados para tratamento da diapression analisou 5 estudos comparando AD com AD head-to-head: (fluoxetina vs. paroxetina; fluoxetina vs. citalopram; agomelatina vs. sertralina, agomelatina x paroxetina, agomelatina x escitalopram); 1 ensaio comparando suplemento de magnésio x imipramina; 1 comparando sertralina com terapia cognitivo-comportamental-TCC e outro com terapia interpessoal; 6 comparando algum AD (1 nortriptilina, 1 fluoxetina, 3 paraxetina, 1 sertralina) com placebo. No geral, observou-se que todos esses AD citados foram eficazes na melhora dos sintomas de depressão com períodos de observação curtos que variaram entre 1 a 6 meses. Apenas o estudo comparativo entre TCC e sertralina teve duração de 1 ano e 3 meses e revelou manutenção do efeito antidepressivo da sertralina 22. Maior redução nos níveis de HbA1c com o tratamento usando quaisquer desses AD foi observada quando havia escores altos de depressão e/ou altos níveis de HbA1c no início do tratamento 22.
- Exceção se faz ao estudo que avaliou a nortripitilina e mostrou piora do controle glicêmico, e a imipramina, que não revelou melhora nessa medida. Nota-se que ambas as substâncias pertecem a classe de AD tricíclicos 22.
- Os demais estudos dessa revisão referiram-se a grupos comparativos entre abordagens psicossociais diversas, tais como TCC, psicoeducação, midfulness, dentre outras, sendo que a TCC foi a que se mostrou mais eficaz no tratamento dos sintomas depressivos, assim como no controle glicêmico 22.
- Outra meta-análise mais recente que avaliou a eficácia dos AD no tratamento da fase aguda da depressão (2 a 6 meses) nos portadores de DM 2, confirmou os dados relatados acima para os mesmos AD, porém ressaltou que a redução na severidade da depressão ocorreu em primeiro lugar com o escitalopram, seguido pela agomelatina. A redução dos níveis de HbA1c ocorreu com a vortioxetina, seguida pelo escitalopram e agomelatina. Nesta revisão, os autores sugerem o uso do escitalopram e da agomelatina como primeira opção 23.
- Do ponto de vista de efetividade, vale relembar que os AD tricíclicos e a mirtazapina (não testada na diapression), induzem ganho de peso significativo, aumentam a resistência à insulina e pioram o controle glicêmico em portadores de depressão, e por isso devem ser evitados naqueles com DM 20. De fato, uma revisão sistemática recente que investigou o risco de desenvolvimento de DM com o uso prolongado de AD (1 a 18 anos) em portadores de depressão mostrou que a classe dos tricíclicos esta mais associada ao risco de induzir DM em longo prazo. Esse dado é bastante relevante, dada a necessidade de manutenção do AD para vida toda em boa proporção dos pacientes com TDR 24.
- Estudos que avaliam o uso da bupropiona em portadores de depressão mostram que este AD está associado a perda de peso e não causa disfunções sexuais (como queixa de redução de libido) 3, que é de particular importância em pessoas com DM que também podem cursar com disfunção erétil 3,18. Entretanto, não existem estudos randomizados comparativos head to head entre a bupropiona e os ISRS, ou IRSN; ou com bupropiona x placebo que avaliem sua eficácia antidepressiva em pessoas com DM.
- Não existe um consenso que guie a escolha medicamentosa focada no tratamento da depressão em pacientes com DM. Contudo, os estudos existentes reforçam a importância do uso de AD, da psicoterapia e da modificação do estilo de vida no tratamento desses pacientes. Diante da heterogeneidade metodológica dos estudos disponíveis, a prática clínica deve levar em consideração os conhecimentos da farmacodinâmica e da farmacocinética dos AD em geral. Neste sentido, considerando o princípio da eficácia e da segurança em relação a possíveis eventos adversos metabólicos, a fluoxetina, a sertralina e a agomelatina figuram, até o momento, entre os AD mais adequados no tratamento de trasntorno depressivo das pessoas com DM 22,23,24.
- Uma meta-análise com 6 estudos pré-clínicos e 4 clínicos avaliaram a eficácia da agomelatina no tratamento da diapression mostrou que esse agonista dos receptores de melatonina (MT) 1 e 2 e também antagonista do receptor 5-HT2C da serotonina, pode ser um tratamento promissor para depressão e diabetes comórbidos, associados tambem a redução da complicações do DM 25. Importante lembrar que no manejo desses pacientes, estratégias colaborativas e planos de cuidados integrados, incluindo acompanhamento de rotina, uso racional de medicamentos e gestão da adesão à medicação, devem ser controlados no curso do tratamento 5.
| TABELA 2- ANTIDEPRESSIVOS DE SEGUNDA GERAÇÃO | |||
| Nome genérico | Classe | Meia vida | Faixa terapêutica |
| Fluoxetina | ISRS | 1-4 dias 7-15 dias (metabólito) | 20-80 mg |
| Sertralina | ISRS | 26 horas | 50-200 mg |
| Paroxetina | ISRS | 24 horas | 20-40 mg |
| Fluvoxamina | ISRS | 15 horas | 150-300 mg |
| Citalopram | ISRS | 33 horas | 20-40 mg |
| Escitalopram | ISRS | 33 horas | 10-20 mg |
| Venlafaxina | IRSN | 3-7 horas 9-13 horas (metabólito) | 37,5-375 mg |
| Desvenlafaxina | IRSN | 13 horas | 50-100 mg |
| Duloxetina | IRSN | 12 horas | 60-120 mg |
| Mirtazapina | ANASE | 20 a 40 horas | 30-60 mg |
| Bupropiona | IRND | 10-14 horas20-27 horas (metabólito) | 150-450 mg |
| Agomelatina | Agonista melatonérgico | 1-2 horas | 25-50 mg |
| Vortioxetina | Multimodal | 66 horas | 5-20 mg |
ISRS- Inibidor seletivo da recaptação de serotonina, IRSN-Inibidor de recaptaçao de serotonina e noradrenalina, ANASE- Antidepressivo serotonérgico e noradrenérgico especifico, IRND-Inibidor de recaptaçao de noradrenalina e dopamina.
| TABELA 3- ANTIDEPRESSIVOS DE PRIMEIRA GERAÇÃO (NÃO SELETIVOS) | |||
| Nome genérico | Classe | Meia vida | Faixa terapêutica |
| Amitriptilina | ADT | 10-28 horas | 50-150 mg |
| Clomipramina | ADT | 17-28 horas | 100-400 mg |
| Imipramina | ADT | 4-18 horas12-24 horas (desipramina) | 5-300 mg |
| Nortriptilina | ADT | 36 horas | 50-300 mg |
ADT-antidepressivo tricíclico.
R4 – No tratamento da depressão em pessoas com diabetes, NÃO É RECOMENDADO a preferência pela prescrição de antipsicóticos atípicos, devido a tendência para ganho de peso, devendo estes serem reservados para situações onde não haja outras opções.
| Classe III | Nível C |
Sumário da evidência:
- Os antipsicóticos atípicos indicados como coadjuvantes no tratamento da depressão resistente são consistentemente descritos na literatura como fatores associados ao ganho de peso e ao aparecimento da síndrome metabólica, a exemplo da olanzapina e da quetiapina, e por isso devem ser evitados sempre que possível em pessoas com depressão e diabetes tipo 2 5,18,23,24. Outros antipsicóticos atípicos, como o aripiprazol e o brexipiprazol, têm um perfil de tolerabilidade mais favorável no aspecto metabólico 5. Dessa forma, devido ao ganho de peso, e aumento da resistência à insulina e em outros parâmetros metabólicos, as ações dos fármacos no controle glicêmico devem ser avaliadas individualmente, pesando o conhecimento da farmacodinâmica e do perfil de tolerabilidade dos vários medicamentos disponíveis para o tratamento da depressão 25,26.
NOTA IMPORTANTE 4: USO DE ANTI-DIABÉTICOS NO TRATAMENTO DA DEPRESSÃO
- Pioglitazona
A pioglitazona, um agonista seletivo do fator de transcrição nuclear proliferador-ativador de peroxissoma gama mostrou ação antidepressiva em pacientes com episódio agudo de depressão, em monoterapia ou associada a um AD, mesmo em pacientes sem doenças metabólicas 28. - Metformina
A metformina tem sido reconhecida por seu efeito neuroprotetor e por promover neurogênese, detectados em modelos experimentais com roedores e também em seres humanos 29. Ademais, uma coorte que avaliou 41.204 homens com DM 2, com média de idade de 74,6 anos, mostrou que o uso da metformina reduziu o risco de depressão e de demência nesses indivíduos 30. Uma revisão descreveu estudos clínicos e experimentais sugerindo efeito antidepressivo da metformina. Foi demonstrado que o efeito é mediado por diferentes mecanismos de ação, tanto a nível periférico quanto a nível do sistema nervoso central, tais como sensibilização dos receptores de insulina, diminuição dos níveis séricos de glicose, inibição da neoglicogênese, inibição da angiotensina II (Ang II), normalização da microbiota intestinal e da permeabilização intestinal e inibição do fator NF-kB. Todas essas ações resultam na melhora dos sintomas depressivos e do controle glicêmico 31. Todavia, mesmo diante de tais evidências, ainda não existe recomendação formal para prescrição de medicamentos anti-diabéticos no tratamento dos transtornos depressivos especificamente.
Tabela de recomendações
| Recomendações | Classe | Nível | |
| R1 | É RECOMENDADO o rastreamento de rotina de sintomas depressivos em pessoas com diabetes, por anamnese ou com a aplicação de instrumentos de triagem específicos. | I | C |
| R2 | É RECOMENDADO investigar se a pessoa com diabetes e depressão está aderindo ao tratamento do DM, pois a presença da depressão piora a adesão ao tratamento do diabetes. | I | C |
| R3 | Nas pessoas com diabetes e depressão, É RECOMENDADO o tratamento farmacológico com AD para remissão da depressão e melhora do controle glicêmico. | I | B |
| R4 | No tratamento da depressão em pessoas com diabetes, NÃO É RECOMENDADO a preferência pela prescrição de antipsicóticos atípicos, devido a tendência para ganho de peso, devendo estes serem reservados para situações onde não haja outras opções. | III | C |
| R5 | É recomedado evitar o uso de antidepressivos tricíclicos em portadores de diabetes, pois eles estão associados a ganho de peso e DM em longo prazo. | I | B |
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Cite este artigo
Miranda-Scippa AMA, Chaves-Fonseca RM, Almeida-Pititto B, Salles JEN, Marcello Bertoluci, Moura F. Manejo da Depressão no Diabetes. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2025). DOI: 10.29327/5660187.2025-3 , ISBN: 978-65-5941-367-6.